quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

CARAS... CARICATAS

Contamos com o trabalho da Atriz, Arte-Educadora e Artista Plástica Priscila Pimentel, com essas caricaturas de toda a equipe, que ajuda a trazer um pouco da atmosfera do espetáculo. Sobretudo, o espírito clownesco, característico dos procedimentos dramatúrgicos do Teatro do Absurdo. Destaque para Ionesco, que, ao meu ver, traz com maior força a comicidade. Um traço que está sendo desenhado em nosso espetáculo - a quebra com um riso desconsertante. O que muitos chama de "humor negro".

Cada escolha, quase que milimétrica, vai dando esse contorno de leveza e profundidade ao espetáclo. Uma mistura de dor e alegria, inocência e pervercidade, vazio e turbilhão de sentimentos. Somos bem contemplados com os desenhos de Priscila Pimentel, também por representar o que não queremos mostrar, mas que é bem explícito - nossos defeitos. Claro que de uma maneira exacerbada, nos desenhos, mas no di-a-dia, são suprimidos por falsas ilusões de nosso caráter (sendo bem redundante.)

Acabaram conhecendo mais um pedacinho desse quebra cabeça desembaralhado!




Diretor e Dramaturgo
Tássio Ferreira

Co-Diretora
Edivânia Lima
Assist. de Direção
Diana Paiva


Ator
Lucas Bertolucci

Atriz
Mabelle Magalhães


Ator
Fernando Campos


Atriz
Edivânia Lima

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Todo Vapor...

Diz-se que em Salvador, o ano começa pós-carnaval. De fato, parece que isso acontece, sobretudo no Teatro. Temos poucas produções nesse período conhecido por férias - de janeiro a fevereiro. Com isso, sofrem os espetáculos que se lançam nesse período, sofrem as companhias (nosso caso) que buscam apoio de empresas para estrear espetáculos em pós-carnaval (nosso caso), que recebem desculpas diárias de "tal diretor de marketing" estar de férias, ou: "não podemos apoiar nesse período, ligue depois do carnaval".
A coisa se não é caótica, está beirando o próprio caos. Mas, como somos ousados, metemos a cara e damos seguimento aos nossos projetos. Vassoura vai sair! Rr.
Já podemos dizer que esse ano será de grande temporada para o espetáculo, ou de pequenas temporadas que juntas, deixam o espetáculo em cartaz por algum tempo.
Aí vai nossa programação de 2010...

Março em cartaz: Café Teatro Zélia Gattai - Pelourinho
Quando: Quartas-Feiras (exceto dia 03)
Horário: 19h
Ingressos: R$ 10,00 inteira e R$5,00 meia.


Abril em cartaz: Teatro Raul Seixas - Sindicato dos Bancários
Quando: Sábados
Horário: 20h
Ingressos: R$ 10,00 inteira e R$5,00 meia.

Maio: Estamos fechando temporada
Junho em cartaz: Teatro Gamboa Nova - Largo dos Aflitos
Quanto: Provavelmente sextas e sábados
Horário: 20h
Ingressos: R$5,00

A idéia é de um espetáculo que possa ser adaptado a qualquer espaço, não limitado a caixa cênica italiana. Daí, nosso projeto contempla apresentações em faculdades, para suscitar questionamentos diversos nos cursos de letras e enfermagem. Letras, levantado questões do uso da linguagem na contemporaneidade, alé de construções em dramaturgia e dos procedimentos dramatúrgicos do Teatro do Absurdo. Em enfermagem, se pode discutir questões de ética e moral dentro de um hospital ou clínica. Além de procedimentos que as personagens executam no espetáculo, e contrapor com a realidade não ficcional.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Nova Montagem da Companhia...

2010 com mudanças de planos...



A Priore, a idéia era começar o ano com a montagem do texto de Eugène Ionesco, A Cantora Careca. Daí, a mudança para o texto VASSOURA ATRÁS DA PORTA OU QUARTO NÚMERO NADA, do diretor artístico da Companhia: Tássio Ferreira. Ainda na estética do absurdo, essa nova montagem deve estrear em Março, aqui em Salvador. Breve divulgaremos datas e o teatro.



Um pouco sobre a peça....



Vassoura Atrás da Porta ou Quarto Número Nada, retrata uma fatia do mais novo cotidiano de dois pacientes: P1 e P2, dentro de uma enfermaria de um hospital público. Bastante humorados: vezes brigam, vezes lamentam seu estado moribundo, reclamam o atendimento hospitalar, esperam, esperam, e, esperam. Duas enfermeiras responsáveis pelos dois, interferem, vez ou outra para dar recomendações, contra-indicações, e zelar pelos pacientes.

Um texto inspirado no universo do Teatro do Absurdo, sobretudo aos procedimentos dramatúrgicos extremamente diferentes de Eugène Ionesco e Samuel Beckett. Uma crítica forte funcionalismo público, no que diz respeito à saúde, um questionamento as ciências. Até que ponto existe essa precisão científica, essa supervalorização que é dada? Além de colocar à mesa os valores humanos, que, imediatamente trazem consigo esse referencial do divino, tão questionado no renascimento e que ganha nova significação, em nosso século XXI.



Os ensaios começaram ontem, e a coisa promete. Temos a diretora Edivânia Lima, como convidada neste processo a ser Co-Diretora do espetáculo, além da incorporação de Diana Paiva à equipe, trabalhando como Asssistente de Direção.


um trecho do texto:

Personagens:

P1
P2
Enfermeira 1
Enfermeira 2



Cenário:

Uma vassoura atrás da porta e uma janela próxima ao paciente 1. Duas camas hospitalares. Branco. Vazio.




P1. Eu já pedi que fechassem a janela. Venta muito, e, eu sinto frio no pé.


P2. Mas o atendimento é mesmo precário, só tomamos banho uma vez por semana.


P1. Eu não entendo porque não deixam as cartas aqui. A gente tem que ler, e devolver.


P2. Minha cabeça coça muito.


P1. Você reclama demais!


P2. Não, você que reclama!


P1. Não, é você!


P2. Não, o reclamão é você!


P1. Tá, assumo que sou eu. (pausa) É o que resta.



P2. E resta alguma coisa?


P1. Resta muita coisa.


P2. É o que eu perguntei.


P1. Foi o que respondi.



P2. Você respondeu e não disse nada.


P1. Você é muito excêntrico. Isso me irrita profundamente.


P2. Quem se irrita profundamente sou eu! Sou obrigado a ouvi-lo todos os dias, todas as horas, todos os minutos...


P1. E os segundos!


P2. Cale a boca!


Silêncio.


P1. Já pedi que fechassem à janela. Venta muito e, eu sinto frio no pé.



P2. Você não tem algo mais criativo?


P1. Só se eu voasse pelo quarto.


P2. Seria bom!


P1. É, seria.


Breve, mais notícias do espetáculo...





sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Minifestival de Dramaturgia QUATRO CRAVOS PARA EXU


Hoje, dia 08 estréia o Minifestival de Dramaturgia QUATRO CRAVOS PARA EXU.

Uma iniciativa do Prof. Dr. Marcos Barbosa, após um curso de Extensão Universitária, na Escola de Teatro da UFBA de Iniciação à Dramaturgia.

(Da Esquerda para Direita: Daniel Guerra, Crstiane Barreto, Gildon Oliveira, Bárbara Pessoa, Tássio Ferreira e Fábio Nieto)

Alguns muitos exercícios foram feitos, para estimular o processo de criação dramatúrgica, sempre inspirados em imagens. Ao fim, esse curso resultaria em uma peça curta: de 10 a 15 páginas. Eram seis alunos, sendo que somente quatro concluiram as peças, inspiradas em uma série de fotografias LARÓYÈ, bem conhecidas do fotógrafo Mario Cravo Neto (1947-2009). Das fotos, nasceram as peças:




Meninas de Short e Sem Rosto de Cristiane Barreto
Cipriano de Tássio Ferreira
Pensando Bem... de Bárbara Pessoa 
Alfazema e Suor de Gildon Oliveira
(Fotografias das peças: Mario Cravo Neto)

Quem assina a Direção de Meninas de Short e Sem Rosto e Cipriano, é o Daniel Guerra (Baxkai) e, Pensando Bem... e Alfazema e Suor têm direção de Fabio Nieto (O Avental Todo Sujo de Ovo). Ainda na equipe técnica temos: Nando Zâmbia (Shirê Obá) na Iluminação, Ramona Azevedo assina a Maquiagem e Figurino, Cenografia de Hamilton Lima ( A Pedra do Meio-Dia) e Coordenação Geral da Diretora Elisa Mendes (Joana D'Arc).


Dentro de cada pequena grande obra, é possível encontrar as múltiplas facetas do mítico orixá EXU. Trazendo os múltiplos olhares que Mario Cravo Neto trouxe em sua série, desmistificando muitas vezes e figura diabólica trazida pela igreja católica, em oposição ao desconhecido.

Dentro do Festival acontecem muitas coisas: a publicação do livro Quatro Cravos para Exu, onde estão as peças na íntegra, e análises de algumas importantes figuras da dramaturgia Baiana, como: Cleise Mendes, Antônia Pereira, Catarina Sant'Anna e Cássia Lopes. No livro, elas tecem comentarios a cerca das obras lançadas. Ainda acontecerão leituras de textos inéditos de outros dramturgos, mesa de discussão com dramaturgoas baianos como: Gil Vicente Tavares, Cleise Mendes, Marcos Barbosa e outros.

Uma brilhante iniciativa dentro do cenário baiano, que encabeça o primeiro festival de Dramaturgia do estado, onde são laçadas quatro obras de quatro dramaturgos. Um espaço importante de discussão da dramaturgia Contemporânea, do que é produzido na Bahia, e a oportunidade e encenar textos contemporâneos, sendo o mais fiel possível a obra dramatúrgica.

Lembrar que o Minifestival acontece as Quintas, Sextas e Sábados do mês de Janeiro e algumas peças de estendem por Fevereiro. Sempre começando as 19h Meninas de Short e Sem Rosto e Cipriano, e as 20:30h Pensando Bem... e Alfazema e Suor. No Teatro Gamboa Nova - No largo dos Aflitos. Ingressos a R$5,00.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Reflexões sobre o evento "Diálogos sobre Dramaturgia Contemporânea"


Nos últimos dias 05, 06, 07 de outubro, aconteceram no Teatro Martim Gonçalves, os Diálogos sobre Dramaturgia Contemporânea, trazendo para Salvador três conceituados dramaturgos de nossa época: Newton Moreno (Brasil), Ramon Griffero (Chile) e Dario Facal (Espanha), promovido pelo grupo Teatro NU, através do Fundo de Cultura. Um espaço importante de discussão, conhecimento, resignificação de conceitos... Uma verdadeira troca latino-americana. Importe salientar a relevância destes encontros na cidade do Salvador, onde a dramaturgia ainda não encontra no cenário teatral o seu espaço reconhecido.


Nestes três dias, encontramos alunos da escola de teatro (em pouquíssimo número), dramaturgos da cidade, atores, diretores e pessoas afins ao tema. O evento contou com um número de pessoas que considero satisfatório para o juízo de valor que é dado à dramaturgia. Penso que tinham umas vinte e poucas pessoas, oscilando durante os três dias.


No primeiro dia, infelizmente não contamos com a presença do dramaturgo Newton Moreno, por motivo de saúde. Mas, o dramaturgo Cláudio Simões, “fez o seu dever de casa”, e, nos deu a oportunidade de discutir acerca da leitura dramática que foi feita anteriormente a discussão. No segundo dia, enfim, podemos começar o “bate-bola” com os criadores.

Uma tendência desse segundo dia era uma fuga às perguntas de alguns alunos da escola, quando referia à questão a ação dramática dentro do espetáculo DRAMÁTICO. O Dario Facal se contradizia o tempo inteiro. Em uma de suas falas ele nos diz que o texto é mesmo a última coisa a ser trabalhada e de pouca relevância dentro do universo espetacular. Corrigindo, em seguida, após as reações contundentes de alguns, que, na verdade, ele não quis dizer que esse texto não era importante, que ele é professor de Teatro na Universidade, e que o texto tem sim sua relevância. Realmente foi confuso seu discurso.


O que puder perceber é uma tendência à contemporaneidade a fuga do drama, do diálogo propriamente dito. É sabida a liberdade de criação de cada um, mas é complicado chamar de teatro um texto literário, de cunho extremamente épico, onde vez ou outra vemos traços estilísticos do drama. Estamos na era da imagem, da poluição visual, da confusão dos tempos, da efervescência das informações, e esse homem contemporâneo, já não consegue mais acompanhar um espetáculo de teatro, onde o drama é a base. Logo, as companhias contemporâneas têm pautado-se na idéia da construção imagética, substituindo a ação dramática pela exposição de belas imagens corporais, aliadas a uma sonoridade furtiva que completam a cena com um tom de iluminação concebido com seus efeitos tecnológicos. Apesar de ácida essa informação, é clara e recorrente nos espetáculos teatrais, sobretudo da cidade do Salvador – a qual sou residente e acompanho o movimento teatral.


Não quero com essas explanações dizer que as peças que utilizam esses mecanismos são piores ou melhores que as outras. Não! A questão aqui posta é o drama, ação dramática que nutri toda a trama. Existe uma ilusão de ação dramática colocada pelos solilóquios.


Durante as leituras muito bem representadas pelo corpo de atores da Companhia, percebi a “penetração”, o mergulho na caixa cênica do público quando começavam esses trechos que não podemos chamar de diálogo, porque se passam em um outro plano de ação, colocados por exemplo em “Morfologia da Solidão” de Dario Facal. Em uma construção do “diálogo” do homem com uma prostituta do telesexo. Nesse instante a energia do teatro é excitada, e posso dizer que não pelo tema sexual, que realmente mexe com o espectador, mas a idéia do diálogo, a dialética de fato acontecendo e trazendo o público, convidando essas pessoas a participarem do espetáculo. Já provado por Aristóteles em sua poética que de fato o que provoca a catarse nas pessoas é “essa história a ser contada”, não importando ela ser lida ou encenada.

Será que o teatro contemporâneo está fadado ao épico? Será que a linguagem cinematográfica de fato contaminará a linguagem cênica teatral?


Essa outra questão é interessante. No terceiro dia, assistimos à leitura do texto de Ramón Griffero, intitulado “Fragmentos da Solidão”. O próprio autor chileno nos diz a forte influência do cinema, que na verdade ele ingressara no teatro para aprender a dirigir os atores. Essa idéia de cinema é clara em seu espetáculo, que nos bombardeia de informações que do ponto de vista de representação cênica teatral, ela se torna impraticável no palco – visto com meus olhos. Realmente ao ouvir a leitura dramática, as imagens são criadas em minha cabeça, e, logo vemos a sua peça dentro das telonas de cinema.


São discussões que me inquietam bastante. Eu que inicio meus estudos acerca da dramaturgia, entro em conflito com as construções de peças que já fiz. Às vezes me sinto vazio, pois, penso que minhas peças não serão interessantes às pessoas, elas não estam à serviço desse homem contemporâneo, no sentido de não proporcionar essa linguagem cinematográfica, em um espetáculo de no máximo uma hora que esse espectador saia “satisfeito” (sendo esse termo um longo espaço para outra discussão). Não sei escrever assim. A ação dramática, com suas construções de personagens cartesianas ou não, e todas as micros curvas dramáticas construídas, que Martim Esslin trata em “uma anatomia do drama” como os microconflitos que sustentam a trama. Acredito nesse modelo, por enquanto. Pode ser que daqui a algum tempo me renda ao modelo “imagético-épico-dramático” que efeta as emoções humanas, apenas.


Talvez precise de um arcabouço de cunho teórico para defender e elucidar minhas idéias, ou fragmentos de construções de pensamento. Mas, me preocupo com a velocidade de transformação desse teatro, com o stand-up comedy, que confunde ainda mais a cabeça de quem nunca foi ao teatro. Percebo cada vez mais que escolhi o caminho certo dentro da academia, que será projetado para minha carreira profissional. A licenciatura em Teatro. É preciso ensinar, mediar, professar, qualquer que seja a nomenclatura para se definir os processos educacionais dentro da unidade formal de ensino. Vejo claramente que as crianças que tiverem acesso ao fazer teatral, terão maior possibilidade de abrir os olhos para este mundo ao qual vivemos, e, estar mais próxima às artes. Vamos ensinar dramaturgia nas escolas? Meu TCC vem aí, acho esse uma boa temática. As pessoas têm dificuldade de escrever drama, fatalmente porque elas não liam peças nas escolas, e tampouco assistiam espetáculos. Diferentemente na Inglaterra onde o drama é utilizado como eixo para se apropriar dos outros temas e disciplinas.


Espero que espaços proporcionados pelo Teatro NU continuem em Salvador, sobretudo na academia, que não discute a contemporaneidade da dramaturgia como ela merecia ser discutida.



Tássio Ferreira

Nova montagem - A Cantora Careca






Encerramos a nossa temporada com o espetáculo 'Campo de Concentração', no Teatro Caballeros de Santiago, e, estamos em novo processo de montagem, com uma cena de 15 minutos para o projeto Ato de 4 - Escola de Teatro da UFBA.

Escolhemos trabalhar desta vez com uma pitada de humor. Os atores precisavam "respirar" um pouco mais, "Campo de Concentração realmente era de tirar o fôlego", disse um ator. Logo, escolhemos Éugene Ionesco, com seu clássico 'A Cantora Careca'.

No elenco contamos com a participação especial de Mabelle Magalhães, na pele de Sra. Smith, Thiago Souza, vivendo Sr. Smith, Vivian Rigueira e Fernando Campos, com Sra. e Sr. Martin, Gildázio Santos como Mary e Gleison Richelle como o Bombeiro. Contamos com a orientação de cenografia de Maurício Pedrosa. Direção e adaptação de texto, Tássio Ferreira.




Vamos à algumas reflexões dramatúrgicas acerca deste texto.



A peça se passa no interior da Inglaterra, aborda o cotidiano da família Smith, que conversam dizendo banalidades com pouco sentido. Aparece a empregada Mary que anuncia a entrada da família Martin. Estes entram, sentam-se e, iniciam um diálogo também sem grande substância. Eles conversam, acumulam ocorrências, e apercebem-se de que são marido e mulher. Um Bombeiro entra a procura de incêndio, diz algumas anedotas e vai embora. Os casais voltam ao diálogo gratuito, e tudo volta ao início, em uma anticomédia.
Nesta estética absurdista é clara a idéia deste mundo irracional, pueril, que quebra com o encadeamento das falas, surgindo, assim, um “realismo do absurdo”, que é muito mais real e natural que o próprio realismo original que busca essa naturalidade dos acontecimentos, e não deixa espaço para a realidade, menos encadeada, mas imprevista, de fato aconteça. Realidade esta que, é posta à mesa por Ionesco. Realismo do absurdo, pois, dentro desta lógica proposta pelas personagens, ela existe, é real. Ainda que seja de difícil compreensão de sua existência, se levar-mos em consideração o cotidiano ao qual estamos inseridos. Talvez precisasse de mais substância de arcabouço teórico para defender esta afirmativa. Denuncia, também, as mazelas humanas, e tudo que é considerado normal pela sociedade hipócrita.

Trecho da peça (P.40 a 41)

A Smith – Meu marido teimava...
O Smith – Não, você é que pretendia...
O Martin – Sim, ela é que...
A Martin – Não, ele...
Bombeiro – Calma, calma, não se enervem. Conte a história, senhora Smith.
A Smith – Está bem. Estou um pouco midada para lhe falar francamente, mas... Um bombeiro, afinal de contas, é uma espécie de confessor.
Bombeiro – E então?
A Smith – Estávamos a discutir porque o meu marido dizia que quando se ouve tocar a campainha da porta é sinal de que há alguém atrás da porta.
O Martin – Isso é bastante plausível.
A Smith – E eu dizia que sempre que tocam não há ninguém.
A Martin – O que pode parecer estranho.
A Smith – Mas foi provado, não teoricamente, mas por A mais B, por factos.
O Smith – Isso é falso! Então o bombeiro não está aqui? Ele tocou, eu fui abrir e pronto.
A Martin – Quando?
A Smith – Agora mesmo.
A Smith – Sim, mas só depois de se ter ouvido tocar uma quarta vez é que se encontrou alguém. E a quarta vez não conta.
A Martin – Claro. As três primeiras é que contam.
O Smith – Senhor comandante, o senhor permite-me que eu lhe faça algumas perguntas?
Bombeiro – Pois não.
O Smith – Quando eu abri a porta e o encontrei, foi o senhor mesmo quem tocou, não foi?
Bombeiro – Eu mesmo.
O Martin – O senhor estava à porta? Tocou para entrar?
Bombeiro – Sim.
O Smith, para a mulher, vitoriosamente – Está a ver como eu tinha razão? Quando a campainha toca é porque alguém tocou. Você não pode dizer que o comandante não é alguém.




Escolho este trecho sem muitas definições. Poderia ter escolhido quaisquer outro, resultam no mesmo objetivo. Uma característica forte da estética absurdista é seu caráter circular. Não existe uma linha contínua de tempo, logo, a peça retorna ao início, sem alterar sua estrutura inicial. Sabendo isso, qualquer trecho é satisfatório na idéia de mostrar as facetas do absurdo. Vemos em primeira instância a gratuidade do diálogo proposto, que furta essa falsa realidade lógica. No prefácio do livro da peça, Urbanos Tavares Rodrigues nos diz que apesar desse caráter de gratuidade, alguma coisa nunca é gratuita. Essa “quebra” singular do tempo real, é uma das propostas para que seja possível o trabalho do gratuito que não carrega de tudo uma gratuidade, as mil maneiras de não se dizer nada, dizendo.
Este texto nos mostra claramente a idéia de um “antiteatro”, que foge totalmente dos princípios de uma ação dramática que permeia toda a trama, com seus conflitos, e suas curvas dramáticas. Não! Quer-se inovar, fugir a estética pré-estabelecida pelo período e daí, essa idéia de anti, porque nega tudo que já foi proposta, ainda que existam traços estilístico do drama muito subliminares. Seria uma maneira clara de denúncia à sociedade vigente, cheia de regras e conceitos, uma forma radical, talvez, de mostrar o que não se quer mostrar.




Tássio Ferreira

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Campo de Concentração


No principio se espera pelo título que 'Campo de Concentração' seja mais uma peça sobre o holocausto, porém observamos uma grande experiência que nos remete ao mesmo tempo aos nossos mais baixos sentimentos e uma reflexão que adiamos sempre quando estamos diante da realidade. Uma vez que todas as emoções mais intensas e confusas das personagens parecem convergir para a redenção.


As personagens se impõem umas as outras martírios terríveis ora de forma onírica (mais certo seria dizer a maneira de um pesadelo), ora de maneira brutalmente realista. O enredo trás personagens com diferentes personalidades e sentimentos íntimos. As pulsões são expostas, fazendo com que eles se libertem de toda repressão da sociedade e cultura que são impostas pelo superego. Isso acaba provocando a libertação do id, ou seja suas pulsões, que está reprimido dentro de cada um deles.
Campo de Concentração tem o dom de tocar os nervos e de, pela resposta que provoca com esse toque, expor o expectador de maneira desconcertante. Da mesma forma como os sentimentos se abrem diante do expectador como abismos escuros nos quais se cai sem saber quando encontrarão o fundo. Campo de Concentração não deve ser explicado. Deve ser atravessado e enfretado, não que haja afinal esperança de resolver suas contradições. nem de compreender todas as atribulações que ele provoca.


Quanto ao cenário nos remete para o caos em que as personagens se encontram, pouco, simples, mas necessário. Seria conveniente dizer que é pouco explorado diante da magnitude do texto que em dado momento nos faz recordar o grande Augusto dos Anjos (autor de: O beijo; É véspera do escarro; A mão que afaga é a mão que fere; dentre outros).


Campo de Concentração tem quase duas horas daquilo que se pode chamar de drama psicológico, é uma excelente apresentação, porém densa, enevoada, que apresenta textos carregados e quase ácidos em determinados pontos. Ao final da peça é possível compreender tudo aquilo que as personagens vêem tentando nos mostrar ao longo do enredo. Por isso, o expectador deve assistir uma segunda vez para compreender melhor a essência psicológica de cada personagem.



Psicólogo Rafael Glass