segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Por que não Dramaturgia?

       Existe um aspecto crítico na forma como o senso comum concebe o lugar do teatro: prevalece a concepção do teatro como instituição inacessível, destinada apenas àqueles que possuem alto poder aquisitivo. Aliás, essa é uma herança desgraciosa, que contamina o teatro brasileiro desde o século XIX, quando as famílias se preparavam para ir ao teatro, sobretudo, para expor suas jóias, roupas vistosas e luxuosas. As peças duravam três para quatro horas, tinham intervalos longuíssimos, durante os quais o público comia, bebia, encontrava amigos, parentes, tratava de negócios etc. Era, de fato, um teatro excludente, que cobrava caro pelos ingressos e que oprimia pela ostentação de riquezas. Os menos abastados, com certeza, eram excluídos, e os que insistiam em ir assistir às peças ficavam, quase sempre, com os piores lugares, às vezes de pé.
          Tenho a impressão de que muita gente ainda pensa que teatro é luxo. Não! O teatro, hoje, é acessível, existem peças gratuitas, peças com preços baixíssimos, programas de inclusão nas comunidades e muitas outras iniciativas interessantes, na tentativa de aproximar a grande massa dos palcos.
          Ainda assim, tenho amigos e parentes que nunca pisaram os pés em um teatro. Durante minha formação na Escola de Teatro, acabo respirando profundamente os ares teatrais, com isso levei muitos amigos e parentes para assistirem pela primeira vez a uma peça de teatro (homens e mulheres de 20, 30, 40, 60 anos). O resultado disso é que eles adoram e prometem voltar mais vezes. Ainda assim, há os que se esquivam do convite, julgando não ter roupas adequadas, não saber se portar, não gostar...
          Acredito que essa resistência, além de ser cultural, como já defendi, dá-se também em função das tecnologias disponíveis da imagem. A teledramaturgia é uma realidade gritante, praticamente gratuita, e que passou a suprir grande parte da necessidade das massas de contato com a experiência dramática.
          Realmente, seria absurdo pensar numa prática disseminada da produção criativa pela escrita dramática nesses tempos em que uns não ouvem os outros, tempos em que o debate acerca do teatro fica restrito à academia de teatro. [1]
            Mas há que se ser transgressor, nesses tempos de escamoteamento do drama, e investir sempre mais nessa escrita dita careta, ultrapassada, antiga, remota, velha e tantos outros adjetivos que caracterizam, antes, o pensamento contemporâneo.
          A população comum, quando de fato aprecia uma peça teatral de qualidade, sai do teatro com algum ímpeto de autotransformação positiva, ainda que mínima, ainda que ao chegar a suas casas, tudo volte ao normal – e voltará – lá no íntimo, o teatro terá conseguido estabelecer algum tipo de relação com o cotidiano, e convidado a repensar questões da vida particular, ou mesmo problemas gerais do homem. Quero dizer com isso que o teatro tem esse poder de “abrir os olhos” do homem para o mundo que o cerca, potencializando uma leitura crítica de mundo, que o faz tornar-se mais autônomo nas suas relações com esse mesmo mundo. Ele se torna mais consciente, e assim sendo, atua de maneira mais política, intensa – ou pelo menos deveria.


[1] Entendo, de forma cada vez mais clara, que a terra brasileira já há algum tempo não é um bom terreno para a escrita em dramaturgia teatral. Num país em que o diminutivo “historinha” e que o aumentativo “teatrão” se transformam em insulto para a gente do palco, não pode haver chão firme para dramaturgos. (BARBOSA, 2010)

Por Tássio Ferreira

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